
Ao longo de 2025, 30 piauienses foram resgatados de situações de trabalho análogo à escravidão, conforme dados do Ministério Público do Trabalho no Piauí (MPT-PI). As vítimas, em sua maioria homens pobres, com baixa escolaridade e poucas perspectivas de inserção no mercado formal, revelam um cenário preocupante e recorrente, principalmente no interior do estado.
O dado foi divulgado durante o Dia Mundial de Combate ao Tráfico de Pessoas, em 30 de julho, e reacendeu o alerta sobre o tráfico de trabalhadores para outros estados, como Bahia e São Paulo, onde os resgatados atuavam em condições degradantes, sem acesso a direitos trabalhistas mínimos.
Perfil das vítimas: pobreza, baixa escolaridade e exclusão social
Segundo o procurador do trabalho Edno Moura, coordenador regional de combate ao trabalho escravo no Piauí, o perfil das vítimas é semelhante em quase todos os casos. “São homens simples, em situação de pobreza e com pouca ou nenhuma escolaridade. São atraídos por falsas promessas de emprego e acabam explorados em atividades degradantes, principalmente na zona rural”, afirma.
O procurador também destacou que muitos trabalhadores são aliciados ainda nos municípios de origem, sem saberem ao certo qual será o trabalho ou as condições. Muitas vezes, são levados para locais remotos, onde ficam isolados, sem acesso a transporte, alimentação adequada ou proteção legal.
Casos de tráfico interno e trabalho escravo rural
Além das ocorrências interestaduais, o MPT identificou casos de tráfico interno dentro do próprio Piauí. Trabalhadores foram levados para outras cidades do estado para atuar em condições degradantes, principalmente na extração de pedras e trabalhos agrícolas.
Esse tipo de deslocamento reforça a fragilidade social da população rural piauiense. Sem políticas públicas de geração de emprego e renda, essas pessoas ficam expostas à exploração, muitas vezes encarando o trabalho escravo como a única alternativa de sobrevivência.
Fiscalização e canais de denúncia
O MPT reforça que denúncias podem ser feitas de forma anônima e segura, presencialmente nas unidades de Teresina, Picos e Bom Jesus, ou por meio dos canais virtuais disponíveis no site oficial do órgão. A confidencialidade é garantida para proteger o denunciante e viabilizar a investigação.
Edno Moura também ressaltou que o trabalho escravo moderno não se limita a correntes ou castigos físicos. “Hoje, basta que o trabalhador esteja em situação degradante, sem liberdade de ir e vir ou sujeito a condições desumanas, para que se configure o crime”, explica.
Piauí está entre os estados com mais casos no Brasil
Dados acumulados de 1995 a 2024 revelam que o Piauí já registrou 1.666 trabalhadores resgatados, distribuídos em 109 operações. Isso coloca o estado como o 11º no ranking nacional de flagrantes de trabalho análogo à escravidão.
A extração da palha de carnaúba continua entre as atividades com maior incidência de exploração no estado. Fiscalizações em fazendas mostraram trabalhadores em alojamentos insalubres, sem alimentação adequada, higiene ou equipamento de proteção individual.